setembro 18, 2017

Cantarolando

Acordei um dia com a lembrança do meu avô Avelino, vulgo Bilindo, tocador de violão. Nelson Gonçalves me veio à mente; de pobre rima, mas de enorme emoção.





Tu és
uma lesma lerda
poderia te chamar de ameba
e nem irias reparar...

Tu tens
muitos sentimentos vãos
que me escapam pelas mãos
mesmo que eu tentasse segurar...

Tu vens
me dizer o que eu já sabia
e até dispensaria
se ajudasse te acordar...

Tu sabes
e nem adianta reclamar
mas poderias ao menos ponderar
se de mim viesse mais conhecer...

Se não tudo, parte do que eu dizia
assim não mais sofrerias
tamanha desilusão...

E então...
talvez pudesse te chamar de amiga
pois outra vida conhecerias
e não me chamasse mais de amor...

Porém,
tens uma certa miopia
nem perto enxergarias
o que trago em meu coração...

Vais
e segues o teu caminho
abraças com ternura o ninho
pois à ele que te cabes devoção.

Do livro Pé na roça






Anjo do ceú

Um anjo acenou pra mim
e me ajudou a escrever esta música
tão singela de luzes brilhantes

Me ajudou a trilhar meu caminho
um empurrão celestial
do mundo mágico nos céus

De muitas cores foram os sons
de muitas partículas nasceu

Subi no palco e cintilei
uma estrela cadente
assistiu ao espetáculo
no seu breve passar

Anjo de ternura
que agora se foi
me ajudou a despertar


Tradução para o inglês de Helga

Angel in the Sky

An angel waved to me
and helped me to write this song
so simple of shinning lights

Came to help me to walk my way
a heavenly shove
from magic world in the sky

From many colors was the sounds
From much particles was born

I went up in the stage and shone
a shooting star
attended the show
in your short walk

Tenderness angel
now it's gone
helped me to wake up


Meu bom café



Olha o que você fez com o café
Não foi coar, virou quirela
E precisou entrar na goela
Pra comer com mortadela.

Provar do gosto já de cara
Do seu café... você podia
E nada disso acontecia
Mas você foi... lá pra Bahia.

Você podia simplesmente
Ficar contente... e só coar
Sem nunca ter que reclamar
E esconder lá na bacia.

Um bom café você podia
Fazer de noite e de dia
O orifício angular
Fecharia em demasia.

Porque será que seu café
Que esse teu pó... minguou um dia
Andou com estranhas ideias
Que fizeram jogar na pia.

Me lembro as vezes de você
Um bom café... um gosto amigo
Que dessa vida só queria
Uma caneca quente ou fria.

Paródia
Meu bom José – Rita Lee

do livro Até uva passa

 

Mundo das mensagens

Nos mais remotos tempos, viajantes atravessavam continentes inteiros; cavalgando, eles percorriam os extremos, para que uma carta fosse entregue. Os mensageiros nem sempre conseguiam chegar ao seu destino com segurança, tamanha eram as dificuldades enfrentadas. Mais adiante, pássaros foram treinados e carregavam pequenas mensagens mais urgentes, escritas em bilhetes presos em uma de suas pernas. Depois, já n'outra era, eram as cartas e telegramas que faziam as vezes. Com a invenção do telefone, facilitou ainda mais, tudo para que pudéssemos falar de nossas vidas e saber da vida de outros.

As facilidades de comunicação nunca adormeceram, hoje temos e-mails, celulares e redes sociais. São tantas as formas, que chegam a nos perturbar. Nenhum de nós tem assunto suficiente, nem mais tanto a dizer, já que toda essa facilidade de vida virtual, nos mantém informados até demais. 

Com a tecnológica ficamos mais próximos, mas perdemos, de certa forma, o propósito das mensagens, pois elas nos chegam não como palavras, mas em vídeos, gifs,  imagens de todo tipo. Nem sempre conseguimos entender o motivo de tudo que nos enviam, muito menos conseguimos dar conta de retornar.

Confirmo o que eu já sabia, que mais é menos, porque o comodismo nos tornam preguiçosos e muitos preferem não mais escrever-nos usando palavras, expressando-se da forma antiga. 

Tenho saudades do tempo das cartas que nos chegavam pelo correio. Geralmente eram escritas a mão, podia-se sentir mais de cada pessoa, não era uma ação mecânica. Não sou contra o mundo digital, muito pelo contrário, já que eu também usufruo dele, mas deve haver moderação, porque ele pode tanto nos aproximar, quanto nos afastar. 

Na verdade vivemos um dilema, se não aproveitarmos as possibilidades, deixamos de estar presente na vida de pessoas que nos são de grande estima. Mas se tiver que ser assim, que seja então, uma troca de informações concreta e realmente direcionada, não usada como válvula de escape, um passatempo. Compartilhar qualquer informação que nos chega, considerando que todo o conteúdo seja de interesse mútuo, me parece descuido.

do livro em andamento Histórias de nossas vidas 

 

setembro 16, 2017

Mãe das águas

Devo ser uma dessas pessoas loucas de pedra, pois eu não só gosto do mar, eu tenho paixão por ele. Não é daquelas paixões comuns, é quase que doentia. Mas embora me cause grande satisfação, o mar também me amedronta.
Eu sei nadar, o medo nem é o de me afogar, mas ao entrar, tenho uma sensação estranha, como se estivessem me chamando de volta para casa. Sinceramente, ainda não estou pronta.
Se eu pudesse, seria no litoral que eu iria morar. Desejo esse que anda comigo desde sempre, mas como uma pessoa de pé no chão,  infelizmente não na areia, entendo e tento aceitar da melhor forma que posso, as nossas dificuldades.
Admiro pessoas que navegam, lindos os navios, as escunas e até os barcos pesqueiros, mas como uma boa taurina, esse não é o meu lugar, nem em canoa eu entro!
Inúmeras vezes eu entreguei oferendas à Iemanja, mesmo sem conhecê-la direito, sempre senti uma vontade tamanha de agradá-la.
Hoje foi um novo dia especial em minha vida, encontrei entre os meus guardados, um presente que recebi de mamãe, ainda em vida e que eu nem me lembrava mais. O que ela me deu foi uma pirâmide branquinha, que com o tempo amarelou. Dentro dela uma imagem da deusa do mar.  
Ao tocar na peça, como num relâmpago, me veio novamente a lembrança do dia, inclusive de suas palavras: - Guarde com carinho, mamãe trouxe pra você da praia, porque ela é a sua protetora. 
Na época eu pouco entendia, talvez porque ainda não tinha despertado em mim a magia.
Sempre tive amor incondicional por Iemanjá, sempre me senti como se fosse sua filha, mas nunca entendi bem o sentimento.
Hoje, porém, fui presenteada novamente, pois ao me lembrar de mamãe e do seu amor, finalmente entendi.
Duas mães é que tenho, uma da terra, outra do mar. Aceito de bom grado a minha existência por hora, mas sei que um dia haverei de voltar. 



do livro em andamento Encantamentos místicos 

 

setembro 15, 2017

Excesso de bagagens

Não coloque muito peso, porque arrebenta. É assim com malas, sacolas e gente. Excesso de bagagem é desconforto, pois responsabilidades precisam ser divididas. Quando uma só pessoa a carrega, isso a modifica.
Aos poucos vai perdendo a vivacidade e o equilíbrio. Passa a agir mecanicamente, pois já se apresentam sinais de desgaste.
Perde-se a alegria e o bom humor consequentemente.
Perde-se ainda mais, a espontaneidade.
Ninguém é feito de pedra, todos temos uma delicadeza singular e o que fazemos com ela precisa ser bem administrado.
É preciso levar a vida a sério, com certeza, pois é assim que ela é, mas podemos também, ao compartilharmos o que precisa ser cumprido, deixá-la mais sutil e engraçada, quase como uma brincadeira. 

do livro em andamento Histórias de nossas vidas



 
O lixo de cada um define a pessoa que realmente é.
Fácil perceber a irresponsabilidade, observando a forma como é descartado.
Acondicionar o que não nos serve mais, não requer muita inteligência, mas com certeza, ao menos educação.
Se não te serve mais, poderá servir para outros.
Tenha então, ao menos a fineza da separação. 



Sonda-me e descubra a verdade.
Que eu não te amei, tanto quanto pensavas ter amado.
Que te disse apenas o que querias ouvir.
Que fiquei por mais tempo, só porque não tinha para onde ir.
Me conheça quem sou de fato.
Aquela que não mente, mas sabe enganar.

 
Em versos declaro 
grande parte da minha insanidade.
Loucos não são poucos  
e então eu só confirmo, 
a quem ainda duvide
dessa vida
que é só ilusão

 

Acalento do coração

Invento fantasias e as deixo fluírem, 
levadas pelo vento. 
O meu intento é apenas o de explorar 
a minha capacidade de superação.
Me cubro, então, 
com um manto de unguento, 
para curar toda aflição. 
Venço desta forma a agonia, 
atendendo aos apelos 
do meu já cansado coração.


do livro em andamento Recomeço
 

Descansando a mente

No silenciar da gente, pode-se compassadamente ouvir o tic tac de um relógio. Minuto a minuto, continuamente, percebemos o correto funcionamento das engrenagens.
No silêncio da mente, pode-se comparar o mesmo ritmo frequente, ouvindo também as batidas do nosso coração. Ele pulsa tranquilamente, até em quem desconhecia o simples exercício de meditação.
Quem deixa de observar a facilidade de se desligar, mesmo que momentaneamente, não mais vive, mas mente disfarçando toda a afobação. 

do livro em andamento Encantamentos místicos



 

Me roubaram o samba

Lá da escola de samba, ouvi chamarem meu nome. Era o pessoal da batucada, todos já muito alegres, depois das biritas do seu João. 
Amigos sem noção, como haveria eu de participar da festa, sabendo que Maria, aquela desavergonhada, estaria lá, saracoteando como quem nada devesse.

Ela foi por muitos anos, a dona do meu coração, uma fiel companheira; quem eu confiava até debaixo d'água. Formávamos um casal de destaque. Todos sabiam que Maria era o meu amor. 

Cruel foi Maria naquela tarde, quando eu chegava cansado e esperava que me recebesse de braços abertos, como sempre havia feito. 

Já perto de casa, ouvi uma longa e barulhenta gargalhada, vinda do bar da esquina. Curioso, fui ver o que acontecia. Tinha música, pinga e manias. Gente sambando, outras jogadas pelo chão. Pensei naquele momento que parecia ninguém precisasse trabalhar como eu, já que estavam no meio de um dia, celebrando sei lá o que.

Quase os invejei, mas lembrei da Maria e logo apressei o passo. 
Ao chegar em casa, vi as janelas fechadas e estranhei. Era calor, o sol ainda brilhava, fiquei pensando porque ela não as abria. Nem desconfiei, achei que só estivesse ocupada, e realmente estava. Vi Maria de beijos e abraços com Carlão, o cara que entregava água de garrafão todo dia.

Os surpreendi sem querer, eu não desejava tudo aquilo ver.
Nada disse e me fui, como pode, ingrata Maria?

do livro em andamento Histórias de nossas vidas 


 

setembro 12, 2017

Não sofrer nos traz mais sofrimento

Por sermos considerados pessoas fortes, evitamos demonstrar nossas fraquezas, afinal nenhum de nós se sente confortável expondo vulnerabilidades. O caso é que ninguém realmente nos conhece completamente, não sabem o quanto sofremos, não sabem dos nossos medos e dificuldades.
Até podemos disfarçar nossas dores com sorrisos, mas até quando?
Precisamos vez ou outra esvaziar o coração, abrir a torneira dos nossos olhos e então chorar. Não é errado e nem fará com que a nossa imagem seja desconsiderada.
Viver como se nada nos agredisse e nos perturbasse, é viver fingindo e não é a melhor forma de ser admirado, se este for o caso.
Não seremos excluídos por conta de sermos transparentes, talvez somente façamos com que outros se sintam intimidados, pois poucos nesse momento sabem o que dizer.  Não serão nossas tristezas que irão afugentar, principalmente pessoas que nos querem bem.
Não permitir que vejam o que sentimos, não sofrer quando necessário, nos causa maior sofrimento.

do livro em andamento Histórias de nossas vidas


 

A gaveta dos encantos

Dá uma preguiça danada fazer arrumação, compromete nosso tempo, é desgastante, um mau necessário; mas é organizando nossas prioridades que ganhamos tempo, economizamos emoções desnecessárias.
Em meio a confusão, enquanto vamos desentulhando tudo, acabamos descobrindo preciosidades nos nossos guardados, que nos encantam novamente. 
Aproveitando o momento, bom nos desfazermos do que não serve para nada e só fica ocupando espaço. É assim com as nossas coisas e com os nossos relacionamentos. Vamos colecionando, empilhando, até que comecem a nos prejudicar, pois tiram nossa energia.
As gavetas mais acessadas, as de uso diário, provavelmente só tem o que nos agrada, o que nos basta, mas existem gavetas que praticamente nunca abrimos e nem nos lembramos o que colocamos nelas. São as gavetas da ociosidade, do sentimento nocivo. É lá que mora o perigo, mas é também onde reencontraremos pequenos tesouros, antes esquecidos. 

do livro em andamento Histórias de nossas vidas 

setembro 11, 2017

Difíceis tempos de mudanças

Furacões, terremotos, seca e aquecimento global. Não acredito seja prenúncio do final dos tempos, fim do mundo, muito menos profecia sendo cumprida.
Os religiosos que me perdoem, mas Deus não liquida, não mata, não tira nada dos filhos. Deus é uma força superior, o criador de todas as coisas, ele só quer o nosso bem.
O culpado por tantos desarranjos no nosso já tão desgastado planeta, sabemos que é o Homem, com toda a sua ganância de poder, de querer sempre mais. 
Os tempos como o conhecemos realmente estão mudando, nada mais será como antes, porém, a maior mudança esperada, tem que ser a do nosso comportamento. Precisamos resgatar o respeito para com as pessoas, o amor universal. Voltarmos a nos importar com o próximo, deixarmos de ser tão egoístas. Será voltando às nossas raízes, quando temíamos por penitências e castigos, que reaprenderemos a ser gente. Cada um de nós é capaz de entender e aceitar os limites atuais, afinal é tudo consequência de más ações.
O que precisamos fazer para suportar tamanho desgaste, é nos focarmos novamente na importância que tem a vida, mesmo que ela se apresente com tamanha precariedade. Precisamos parar de acusar, julgar e rotular.
Não adianta cruzar os braços e continuarmos reclamando, é preciso ação, espontaneidade de nossa parte, mais verdades e menos falsidades.
Se desejarmos dar continuidade ao caminho, é preciso que haja luz nessa trilha. Retirarmos pedras e não apenas do nosso. Sermos mais dóceis, mais humildes e benevolentes.
A mudança deve começar dentro do nosso coração, pois nada mudará se não nos esforçarmos para sermos pessoas melhores todos os dias.
É cômodo agarrar-se em crenças espirituais, aceitando que são provações merecidas, pois muitos de nós não a merecemos.
Vivemos um período de falcatruas, em meio a aproveitadores e gente sem noção. Não há Deus dentro delas. Deus para mim é a extensão do seu amor, nem mais, nem menos.
Somente quando deixarmos de nos comportar feito crianças mimadas, choramingando por um colo que não mais nos abraça como deveria, é que teremos crescido e aprendido a enfrentar dificuldades com a cabeça erguida, cheios de dignidade, por termos feito a coisa certa.

do livro em andamento Encantamentos místicos