agosto 09, 2017

Persona non grata

"O inferno está cheio de gente com boas intenções."
Quantas vezes já deve ter ouvido tal frase!
É bem assim mesmo, metemos os pés pelas mãos, mesmo quando tentamos ajudar. Nos descuidamos e deixamos de observar os limites de cada pessoa. Acreditando estarmos fazendo o bem, damos um passo na frente e terminamos por estragar tudo.
Ninguém deve arcar com responsabilidades alheias. Ajudar é uma coisa, tomar como suas as dores do outro é bem diferente.
A forma de agir de acordo com as circunstâncias é de cada um. Se parece-nos improvável que as suas decisões facilitem sua vida, que sigam eles então, por caminhos tortuosos, esbarrando numa colheita que não pode ser feita, por falta de plantio e descuido.
Mentes privilegiadas são mentes pensantes, até por demais, decidem resolver o que não deveria ser resolvido por quem está de fora. As nossas certezas podem ser incertezas dos demais e seguir adiante interferindo, nos tornam apenas intrometidos.
Mesmo que bem intencionados, quando nos envolvemos sem sermos chamados, sem pedirem nossa ajuda, faz com que sejamos mal interpretados e os nossos cuidados exagerados nos desabonam.
Fácil entender uma situação complicada quando não se vive diretamente o problema,  difícil deixarmos passar, sabendo que podemos fazer diferença.
A vida de cada um é única e intransferível, trazer preocupações deles para o nosso coração, compromete-nos de forma descabida.
Se desejarmos ajudar, que aconselhemos, não mais. Haverão oportunidades em que seremos chamados e então poderemos na ocasião, decidirmos se nos cabe ou não.
Ajudar não nos custa nada, muito pelo contrário, é até uma satisfação, o fato é que não são todos que pedem ajuda e nem todos sabem recebê-la.
Tudo é um jogo de interesses. Seremos solicitados quando for conveniente , não antes. Inclusive, seremos descartados se não pudermos oferecer tudo o que esperam de nós. Somente seremos essenciais, se decidirem que cabemos no contexto de suas vidas.
É injusto remoer sentimento de insatisfação pessoal, acreditando não estarmos a altura do esperado, pois as pessoas sabem ser cruéis de uma forma assustadora.
Não devemos nos igualar a tamanha mediocridade, somos melhores que isso, e também se julgarmos, seremos julgados. 
Deixemos que a situação se esclareça de forma natural e se formos requisitados, mesmo que ao nosso ver tardiamente, decidiremos no momento se devemos aceitar ou recusar o pedido.
As aparências podem nos enganar, nem sempre aqueles que nos parecem vulneráveis, realmente os são.

do livro em andamento Histórias de nossas vidas